GoNaturePositive!: Roadmaps para Edifícios Verdes traçam caminhos para uma Economia Positiva para a Natureza em Portugal
A integração da natureza nos edifícios e nas cidades está no centro de uma transformação necessária do setor da construção. No âmbito do projeto europeu GoNaturePositive!, foram desenvolvidos Roadmaps para apoiar esta transição, identificando os principais desafios atuais e definindo caminhos de ação capazes de contribuir para uma Economia Positiva para a Natureza. (https://gonaturepositive.eu/resources/)
Coordenado pelo Trinity College Dublin, o GoNaturePositive! reúne 20 parceiros de 14 países, entre instituições de investigação, organizações ambientais e outras entidades que trabalham para acelerar a transição para modelos económicos capazes de regenerar a natureza, em vez de apenas reduzir impactos negativos. A Associação Nacional de Coberturas Verdes (ANCV) integra o consórcio e participa no piloto dedicado ao setor dos Edifícios Verdes (Green Buildings), em articulação com a European Federation of Green Roof and Living Wall Associations (EFB). (https://efb-greenroof.eu/)
No setor dos Edifícios Verdes, o trabalho desenvolvido procura reforçar a integração de coberturas verdes, paredes verdes e outras Soluções Baseadas na Natureza (SbN) no ambiente construído, reconhecendo os edifícios como elementos capazes de contribuir ativamente para a biodiversidade, a adaptação às alterações climáticas, a gestão sustentável da água, a eficiência dos recursos e o bem-estar das comunidades. Portugal é um dos países-piloto deste processo, sendo o trabalho nacional liderado pela ANCV.
Uma visão europeia para os Edifícios Verdes
A nível europeu, o Nature-Positive Green Buildings – Roadmap for Europe estabelece uma visão para 2050 em que cidades e edifícios passam a funcionar como ecossistemas vivos, regenerativos, circulares e inclusivos, nos quais a natureza deixa de constituir um elemento complementar e passa a integrar as decisões de planeamento, construção, financiamento, regulamentação e inovação. O processo identificou como um dos principais obstáculos a atual fragmentação entre políticas, normas, financiamento, conhecimento e competências profissionais. Em resposta, o Roadmap aponta para uma maior harmonização de normas europeias, introdução de métricas de desempenho ambiental, novos mecanismos de financiamento associados a resultados, utilização de materiais circulares e de baixo carbono, acesso mais equitativo à infraestrutura verde e reforço da formação profissional. A conclusão é clara: as Soluções Baseadas na Natureza deverão evoluir de soluções ainda frequentemente consideradas opcionais para uma componente essencial da infraestrutura urbana europeia.

O Roadmap Europeu e os roadmaps nacionais encontram-se consolidados no documento Pilot Roadmaps – Green Buildings, disponibilizado pelo projeto GoNaturePositive!, que reúne os resultados do processo desenvolvido no setor dos Edifícios Verdes.
Consultar o documento: https://gonaturepositive.eu/wp-content/uploads/2026/07/Pilot-Roadmaps-Green-Buildings-row-90.pdf
Portugal: mais de 600 contributos para construir uma visão nacional
Em Portugal, a ANCV desenvolveu um processo participativo para adaptar esta visão europeia à realidade e às necessidades específicas do território nacional. O Roadmap Portugal para os Edifícios Verdes resulta de duas sessões presenciais realizadas em Lisboa e no Porto, que envolveram 63 participantes provenientes de municípios, empresas, instituições de investigação e ensino, especialistas e sociedade civil. O processo reuniu mais de 600 contributos, permitindo construir uma visão multidisciplinar sobre os desafios e as oportunidades para o desenvolvimento do setor em Portugal.
A primeira sessão decorreu a 27 de novembro, no Instituto Superior Técnico, em Lisboa, enquanto a segunda teve lugar a 5 de dezembro, no CIIMAR – Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental, no Porto. Durante as sessões, os participantes trabalharam colaborativamente na identificação do cenário atual, na construção de uma visão comum para 2050 e na definição de medidas e prioridades de curto, médio e longo prazo. (https://www.ciimar.up.pt/pt-pt/ | https://tecnico.ulisboa.pt/pt/)
Os contributos recolhidos permitiram organizar o Roadmap português em cinco grandes eixos estratégicos: Política, Finanças, Negócios, Tecnologia e Mudança Social, abordando de forma integrada as condições necessárias para tornar as Soluções Baseadas na Natureza uma parte estrutural do setor da construção e da regeneração urbana.
Os principais desafios identificados em Portugal
O processo evidenciou que a integração das SbN em Portugal continua condicionada por desafios que não podem ser analisados isoladamente. Entre estes encontram-se a integração ainda limitada das coberturas verdes, paredes verdes e outras SbN nas políticas públicas e nos regulamentos municipais; a inexistência ou insuficiência de instrumentos financeiros dedicados; a necessidade de reforçar a investigação e o desenvolvimento de soluções adaptadas ao contexto português; a escassez de profissionais especializados; e uma ainda reduzida literacia ambiental e participação social.
No campo das políticas públicas, o Roadmap aponta para a necessidade de integrar progressivamente estas soluções nos instrumentos de planeamento e regulamentação, nomeadamente nos Planos Diretores Municipais e regulamentos municipais, assim como nas estratégias nacionais relacionadas com clima, água, energia e descarbonização. O desenvolvimento de normas técnicas, sistemas de certificação e métricas de desempenho surge igualmente como uma condição necessária para garantir qualidade, segurança e consistência na implementação.
No domínio do financiamento, os contributos reforçam a necessidade de criar mecanismos capazes de reduzir as barreiras económicas à implementação destas soluções. Entre as propostas encontram-se linhas de crédito verdes, fundos dedicados, incentivos fiscais como o IMI Verde e a redução do IVA, assim como a integração de métricas relacionadas com biodiversidade e desempenho ambiental nos sistemas de avaliação de risco e concessão de crédito. O objetivo a longo prazo é criar um sistema financeiro mais estável e acessível, capaz de reconhecer economicamente os serviços prestados pelas Soluções Baseadas na Natureza.
Ao nível dos Negócios, o Roadmap identifica um mercado ainda em consolidação, marcado por custos relativamente elevados, número limitado de empresas especializadas e falta de profissionais qualificados. A visão proposta passa pelo crescimento das empresas e serviços ligados às SbN, pela adaptação dos modelos de negócio aos enquadramentos europeus e pela integração generalizada das soluções verdes nos projetos de construção e regeneração urbana. Até 2050, pretende-se alcançar um mercado mais competitivo e estruturado, apoiado por empresas especializadas e profissionais devidamente qualificados.
A Tecnologia constitui outro eixo determinante. Entre as propostas destacam-se o desenvolvimento e certificação de materiais de origem natural – incluindo a valorização de biomateriais nacionais, como a cortiça portuguesa –, a utilização de ferramentas como a Avaliação do Ciclo de Vida e o Passaporte Digital do Produto, e uma maior utilização de sistemas de monitorização e sensores. Entre os marcos projetados para 2030 encontra-se ainda a integração de coberturas verdes com sistemas fotovoltaicos, acompanhada por tecnologias de monitorização ambiental, enquanto a visão de longo prazo considera também o recurso a ferramentas digitais, inteligência artificial e robótica para apoiar o planeamento e gestão destas infraestruturas.
Por fim, o eixo da Mudança Social evidencia que a transformação do setor depende também da aproximação da sociedade à natureza. Entre as prioridades encontram-se a introdução das SbN nos programas educativos, o desenvolvimento de formação técnica especializada, o aumento da literacia ambiental e a implementação de programas de participação comunitária. A visão para 2050 inclui cidades mais inclusivas e biodiversas, corredores ecológicos capazes de ligar diferentes edifícios, utilização de coberturas urbanas para produção alimentar comunitária e o reconhecimento de novas competências e profissões associadas ao setor, incluindo a figura do “greenroofer”.
Uma visão para Portugal em 2050
A visão construída coletivamente projeta, para 2050, cidades e edifícios portugueses funcionando como sistemas regenerativos, resilientes e circulares, nos quais coberturas verdes, paredes verdes e outras infraestruturas baseadas na natureza sejam reconhecidas como componentes habituais do ambiente urbano. O objetivo é que o ambiente construído contribua simultaneamente para a biodiversidade, a adaptação climática e o bem-estar social, sustentado por políticas públicas integradas, financiamento adequado, um mercado nacional forte, inovação tecnológica e profissionais qualificados.
Esta visão representa igualmente uma mudança na forma como a vegetação é entendida no setor da construção: de elemento essencialmente decorativo ou complementar para uma componente funcional do edifício, com funções ambientais, técnicas, sociais e económicas.

Os resultados mostram ainda uma forte convergência entre os contributos recolhidos em Portugal e as prioridades identificadas no processo europeu. Esta aproximação demonstra que muitos dos desafios enfrentados pelo setor são comuns, embora o Roadmap nacional permita traduzi-los para medidas adaptadas à realidade portuguesa, incluindo a integração das SbN nos instrumentos municipais e nacionais, mecanismos fiscais específicos, valorização de recursos e biomateriais portugueses e reforço das competências profissionais.
O Roadmap Portugal assume-se, assim, não como um ponto final, mas como uma ferramenta orientadora para a ação, capaz de apoiar municípios, decisores políticos, empresas, profissionais, instituições de ensino e investigação, entidades financeiras e sociedade civil na construção de um setor dos Edifícios Verdes mais resiliente, competitivo e positivo para a natureza.
Convidamos todos os interessados a conhecerem o projeto, explorarem os resultados já disponíveis e acompanharem o desenvolvimento desta visão para uma Economia Positiva para a Natureza: https://gonaturepositive.eu/resources/
Agradecimento
A ANCV agradece a todos os participantes que contribuíram para este processo e que, através da partilha de conhecimento, experiência e diferentes perspetivas, tornaram possível a construção de uma visão coletiva para o futuro dos Edifícios Verdes em Portugal. Um agradecimento especial é igualmente dirigido ao Instituto Superior Técnico, em Lisboa, e ao CIIMAR – Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental, no Porto, pelo apoio e colaboração na realização das sessões. O envolvimento de municípios, empresas, profissionais, academia, centros de investigação, estudantes, especialistas e sociedade civil foi fundamental para a construção deste Roadmap e reforça uma das principais conclusões alcançadas ao longo do processo: a transição para uma Economia Positiva para a Natureza exige uma atuação conjunta, coordenada e transversal entre os diferentes setores da sociedade.